14.10.08
Vozes do Sul
A partir de uma pequena discussão sobre as exactas palavras de uma quadra de António Aleixo (N. 18-02-1899 – F. 16-11-1949), fui levado a reler os dois tomos de «Este Livro que vos Deixo», em que se encontra reunida a maior parte da produção literária deste malogrado poeta popular algarvio.
Tenho ainda comigo um terceiro volume intitulado «Inéditos» de António Aleixo e uma sua biografia elaborada pelo jornalista António de Sousa Duarte, em 1999, quando se comemorou o Centenário do seu nascimento, de que igualmente voltei a ler trechos extensos.
Com alguma paciência, tenho buscado e reunido informação sobre, porventura, o maior poeta popular português, que reputo já preciosa, pela quantidade e pela variedade de elementos acumulados sobre a figura de António Aleixo. Ainda hoje, o nome de Aleixo é pouco conhecido, mesmo entre gente letrada. Vale a pena, no entanto, conhecer e divulgar casos de autêntica sabedoria popular como este.
O António Aleixo, sobre ser poeta inspirado, era, pode dizer-se, quase um filósofo, à maneira daqueles gregos antigos, despojados, que calcorreavam os caminhos das terras pobres e agrestes da velha Hélade, discorrendo, conversando e interpelando os transeuntes com que topavam, sem outro fito na vida, que não fosse o seu amor desinteressado à Σοφία (Sabedoria/Saber/Sofia), que, nesses tempos heróicos, abrangia todas as disciplinas do conhecimento, desde a Astronomia à Poesia, passando pela Matemática, pela Física e, claro, também pela Mitologia, com algum misticismo pelo meio.
Julgo haver entre nós reminiscências destas figuras, na metade sul do nosso País, talvez pelas suas parecidas características climatéricas com as típicas da orla do Mediterrâneo: longos meses de calor, com noites muito amenas, de céu limpo, muito estrelado, convidando ao convívio, no fresco da noite.
A RDP, Antena 1, ainda hoje, apresenta um programa aos Sábados de manhã, chamado «Lugar ao Sul», de Rafael Correia, em que este vai percorrendo terras do Alentejo e do Algarve à procura de poetas populares, que aí vivem, alguns conservando quase solitariamente as designadas profissões tradicionais: artesãos, abegões, carpinteiros, marceneiros, pintores, serralheiros, agricultores, pastores, etc., na sua maior parte, com vocação para o canto, para a poesia lírica e de conteúdo social reflexivo, às vezes, de crítica social fortemente mordaz.
É espantoso encontrar, mesmo em sítios bastante escondidos nas serras, autênticos ermos, homens e mulheres que, em forma poética, discorrem sobre os mistérios e infortúnios da vida. Alguns são analfabetos, ou quase, embora apenas no sentido formal, porque ou não frequentaram a Escola ou muito pouco tempo por lá andaram.
Apesar disso, muitos deles, tornaram-se sábios, seres verdadeiramente cultos, no sentido em que formaram uma compreensão da vida, da natureza, e da sua relação com ela, muito concreta, profunda e ajustada. Há mais de vinte e cinco anos que ouço este programa, embora com a regularidade perdida, nos últimos tempos.
Tem o Programa muito interesse e quem o apresenta, Rafael Correia, possui um jeito especial para conversar com estas pessoas. Quase todas elas cantam – e bem – modas tradicionais.
Às vezes, poucas, felizmente, Rafael Correia lá deixa escapar uma ou outra graçola, a despropósito, mas, no geral, é muito correcto com elas e vê-se que lhes tem carinho. Gosto muito de ouvir este singular Programa. Sente-se que está ali um mundo a desaparecer rapidamente, se é que não desapareceu já, e que aqueles são os seus últimos sobreviventes.
Talvez por, em miúdo, ter passado férias, anos a fio, primeiro no Alentejo – Odemira, Zambujeira, Almograve, V.N. de Mil Fontes, Odeceixe (vila já do Algarve, mas em tudo ainda muito semelhante ao contíguo Alentejo) – e, depois, mais tarde, também vários anos seguidos, no Sotavento Algarvio – Tavira, Conceição de Tavira, Cabanas de Tavira, Cacela, Manta Rota, Altura, Monte Gordo e V. R. de S. António, fiquei sempre afectivamente muito ligado a estas gentes e aos seus costumes.
As quadras do Aleixo devo tê-las ouvido, em criança, pela primeira vez, ao meu Pai, que as recitava com vivo entusiasmo e orgulho, não só por as conhecer, mas também por ter conhecido o seu autor, quando este deambulava por feiras e festas das vilas e aldeias da Serra Algarvia e do Baixo Alentejo.
Ouvi-as depois, já adolescente, num contexto politizado, no Pavilhão do Atlético Clube de Moscavide, num sarau efectuado por grupo de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa, aí por 1968/69, quando os estudantes universitários não vestiam fardas, nem cantavam ordinarices à Quim Barreiros.
Ia com eles actuar o Padre Fanhais, que, suponho, foi quem primeiro musicou algumas dessas quadras mais incisivas e o Zeca Afonso, que, já no local, foi impedido de cantar pelo Chefe da Polícia presente, que alegou ter recebido ordens estritas para tal e não poder deixar de as cumprir.
Levantou-se logo um coro de protestos e de murmúrios contra a PIDE/DGS e «o Fascismo» e a coisa pôs-se feia, mas a verdade é que já estávamos na «primavera marcelista» e «o regime» já consentia alguma contestação, não obstante as tintas deveras carregadas com que a Oposição o pintava.
De então para cá, nunca mais deixei de apreciar este malogrado poeta, que nem por ter escolhido, quase sempre, a modalidade das quadras deve ser subestimado. O Pessoa tinha um carinho especial por esta forma de fazer poesia e legou-nos dezenas, se não centenas delas, algumas de grande elegância literária, de fundo lirismo. Só os mais finórios, a tirar para pedantes, desdenham destas formas poéticas.
E, por respeito até ao que António Aleixo sofreu, nas condições deveras precárias em que sempre teve de viver, é justo que dediquemos mais atenção e apreço ao que ele «escreveu», com os parcos conhecimentos formais que pôde agregar.
Na realidade, muito pouco terá escrito, porque mal o sabia fazer. Foi principalmente o tal Professor do Liceu de Faro, Joaquim Magalhães, que, caridosa e pacientemente, pôs no papel aquilo que o Aleixo com naturalidade ia debitando.
O papel extraordinário que este Professor desempenhou, espécie de secretário particular de Aleixo, como este por piada chegou a designá-lo, merece que seja a justo título destacado, pela relevância cultural que representou. Sem complexos e com elevado sentido solidário, ouviu-o e incentivou-o a prosseguir a sua vocação de Poeta inspirado, senhor de uma poesia de forte cunho social e filosófico.
Para elucidação de eventuais cépticos ou acidentalmente desmemoriados, bastará, creio, que aqui coloque algumas das mais justamente conhecidas quadras de Aleixo :
Sei que pareço um ladrão,
Mas há muitos que eu conheço,
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.
De vender a sorte grande,
Confesso, não tenho pena;
Que a roda ande ou desande,
Eu tenho sempre a pequena.
Fui polícia, fui soldado,
Estive fora da Nação;
Vendo jogo, guardo gado,
Só me falta ser ladrão.
Eu não tenho vistas largas,
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de Filosofia.
P'rá mentira ser segura,
E atingir profundidade,
Tem de trazer à mistura,
Qualquer coisa de verdade.
Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a razão, mesmo vencida,
Não deixa de ser Razão.
Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do Mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.
Vós que lá do vosso império
Prometeis um mundo novo,
Calai-vos que pode o povo
Querer um mundo novo a sério.
Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes esqueceste
Tudo quanto prometias.
Não sou esperto, nem bruto,
Nem bem, nem mal educado;
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado.
Quem nada tem, nada come;
E ao pé de quem tem comer,
Se alguém disser que tem fome,
Comete um crime sem querer.
Quem trabalha e mata a fome,
Não come o pão de ninguém,
Quem não ganha o pão que come,
Come sempre o pão de alguém.
Para não fazeres ofensas,
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.
Contigo em contradição,
Pode estar um grande amigo;
Desconfia mais dos que estão,
Sempre de acordo contigo.
O Mundo só pode ser
Melhor do que até aqui,
Quando consigas fazer,
Mais p’los outros que por ti.
E, assim, lição por lição,
O que aos poucos aprendemos,
De outros a outros daremos,
Que outros a outros darão.
O homem sonha acordado,
Sonhando a vida percorre,
E, desse sonho dourado,
Só acorda, quando morre.
Julgo que esta amostra da poesia de Aleixo será suficiente para convencer qualquer um da sua genialidade.
Custa a crer que quem engendrou estes versos tenha sido um homem quase analfabeto, pobre, doente e infeliz. De onde lhe viria tanta inspiração, tamanha sabedoria ?
Para contribuir para a divulgação do nome e da obra de António Aleixo, conto escrever aqui, em breve, um texto evocativo mais extenso e a ele inteiramente dedicado.
Nele homenagearei todos os Poetas populares de Portugal, em particular os que nasceram ao sul do Tejo, região em que estes seres especiais parecem ter encontrado condições favoráveis à sua proliferação, na Poesia como no Canto, facto que, inquestionavelmente, justificaria um estudo académico aprofundado.
Pode ser que alguém ainda se lembre de tal, se mais apelos como este por aí forem aparecendo.
AV_Lisboa, 13 de Outubro de 2008
Comments:
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e que voz!
sempre me encantou a sua sabedoria empírica e os temas nele abordados.
Estimado António Viriato, tem lá um prémio no Privilégios, para lhe agradecer este postal e outros que por aqui li :-)
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sempre me encantou a sua sabedoria empírica e os temas nele abordados.
Estimado António Viriato, tem lá um prémio no Privilégios, para lhe agradecer este postal e outros que por aqui li :-)
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